Eu acordei! Estou viva. Posso ver, ouvir e sentir um gosto ruim na boca. Mas estou fria. Meus pulsos parecem estar desfalecendo, desistindo sem minha permissão. O quarto está sob a pálida luz do dia que, já enfraquecida pelas nuvens escuras, tem de ultrapassar a cortina que separa o quarto do frio externo (ou pelo menos tenta passar essa ideia). Está um tanto escuro e as paredes refletem a cor da cortina, um tom bege. Levanto a cabeça, olho para a porta semi-cerrada na esperança de que alguém entre para aquecer-me a alma, mas só o que adentra o quarto é uma leve e congelante brisa, vinda de uma pequena brecha na janela. No arrepio da pele, agarro-me ao cobertor, imaginando se em vez dele fosse um outro corpo, quente, de fato. Encolho-me e sinto os olhos arderem junto com algo preso na garganta. Talvez uma tentativa de choro, dor que quer sair para não se sentir tão só quanto o corpo e alma que habita sentem-se. Esforço-me para alcançar o relógio, o dia nem começou. O Sol ainda está baixo, de acordo com a hora, e os segundos insistem em querer imitar as horas, e lentos e suaves percorrem o relógio. "Ponteiros imprestáveis!", protesto. Não correm, o tempo nem anda. Tão frio, tão solitário, tão vazio. Casa vazia, não há passos, nem vozes, nem pássaros a cantar lá fora. E o que restou? Afogar-me num sono, pois só assim não verei a vagareza dos ponteiros e esquecerei-me do frio, do gosto ruim na boca, da dor presa, em nós na garganta e na ardência dos olhos.
rev·er·ie [rev-uh-ree] noun 1. a state of dreamy meditation or fanciful musing: lost in reverie. 2. a daydream. 3. a fantastic, visionary, or impractical idea: reveries that will never come to fruition. 4. Music. an instrumental composition of a vague and dreamy character.
quinta-feira, janeiro 06, 2011
domingo, janeiro 02, 2011
Pertinente
Uma conexão entre nós dois. Uma respiração profunda. Um mergulho em busca de ar. O ar que me tiras enquanto tento, arduamente, manter-me de pé. Uma vez ao teu lado, não quero despedir-me ou desperdiçar qualquer segundo. Mesmo sendo difícil conter minha imensa alegria, que não sabe se guardar em silêncio dentro do meu coração e transborda em olhos reluzentes, gosto de observar os teus passos.Gosto de perpetuar em minha memória a cor dos teus olhos, o formato da tua boca, o teu sussurrar, a tua voz quando diz meu nome. Torno-me imensamente egoísta quando estou contigo. E quando estou longe não sinto o chão, não vejo os ponteiros do relógio andarem tão ligeiros como quando estou com você, não vejo o pôr-do-Sol com a mesma alegria, não sei viver bem. A saudade é um espinho que atormenta-me e satisfaz-se em ver toda a angústia que causa-me. Danos reparáveis, mas dolorosos! Saudade que não passa .....
Ao som do álbum The Division Bell - Pink Floyd
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Concernente
Pertenço a ti. Corpo e alma entreguei-me. Senti tua respiração, a tua melhor parte. Ainda posso sentir. Ainda vejo os teus olhos compenetrados a me observarem. O seu olhar vinha direto no meu e eu não podia me conter de tão feliz. Eu sentia que tudo o que sempre precisei estava ao meu lado. E eu te vi dormir, lindo e intocável. Não quis me mexer para não lhe despertar. E a única coisa que eu quis, ansiei e desejei, de fato, naquele momento, foi que o mundo inteiro parasse para que eu pudesse ficar pelo menos mais um pouco ao teu lado e poder contemplar a tua beleza que me é incansável. Incomparável é o que eu sinto por ti. E não há nada neste mundo que vá fazer com que eu sinta-me longe de ti. Você deu-me a certeza e nela eu seguirei. A distância pode separar-nos fisicamente, mas meu coração estará sempre contigo e o teu comigo.
Te amo, amor! ♥
Reticências
O que pensa-se, o que tenta-se escrever, o acorde que falta, a letra que escapa.
Mãos que desenham reticências por entre as folhas de um velho caderno, uma agenda qualquer.
Olhos que não sabem olhar para outro lugar além do horizonte.
Ver o Sol; a chuva que está chegando; o mundo (o seu próprio mundo) caindo, dividido, apartado.
Observar estrelas, os vários pontos de interrogação que se formam e dançam pelo ar.
Um gole de água, uma noite sem fim mesmo com os olhos desvanecendo-se.
A brisa que sopra e mexe a cortina, e que sopra num leve balançar os cabelos, fazendo com que sua visão limite-se até a hora em que você os recoloca no lugar.
Seu corpo dói, mas você não se importa em ter que suportá-la, afinal, o vazio é menos atraente sem dor. Ter que expô-lo sem sacrifício algum é estranho.
Então você se ajeita de hora em hora para poder conseguir continuar a escrever, mas ainda dói. E no fim você pode ver que a dor lhe valeu, pois lhe rendeu algum escrito que talvez só você venha a entender.
Mas que importa? Afinal, a beleza abriga-se nos olhos de quem observa o material em questão.
Uma noite em que não se pode dormir, com as lembranças de um ontem pertinentes à mente, que não sossega e não descansa. Uma mente que está fisicamente esgotada, mas que ainda assim suporta o esgotamento para que a alma possa aliviar-se ao escrever.
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