segunda-feira, março 23, 2015

Desaniversários


Sou filha do outono. Dos seus primeiros dias. Completarei meus 21 outonos em breve, faltam poucas horas. Ai... Mais um dia 24/03. 
Muitos concordam que esse tipo de data deve ser celebrada, pois um ano se passou desde que seu milagroso nascimento aconteceu. Festas ou pequenas reuniões entre amigos e família, presentes, congratulações e desejos de sucesso, saúde e etc. são as regras da casa para o aniversariante em seu dia tão especial. Não é incomum ver pessoas passarem o mês - há quem passe um ano ou mais - planejando o que vão fazer, aonde vão, e quem chamarão quando a data chegar. Guardam dinheiro, reservam um local, ou arrumam a casa para receber os convidados da tão esperada festa. Abastecem geladeiras, freezers e fornos com comidas, salgados, refrigerantes, sucos, bebidas alcoólicas (para quem gosta) e doces. E assim, gastam um bom tempo rodeados por pessoas queridas que fazem o dia ainda mais especial e a alegria fica estampada em cada rosto presente. 
Esse é o resumo de basicamente quase todos os aniversários que já vi, contudo, há quem se negue a fazer qualquer dessas coisas citadas. Sou uma delas. 
Pertenço a uma família na qual aniversários são inexistentes. "COMO ASSIM???!", talvez você tenha ficado surpreso(a), ou não, mas é simplesmente isso. Não tive festas quando criança, nem na adolescência. No máximo as pessoas me parabenizavam, eu agradecia, fim da história. Em apenas duas ocasiões prepararam algo para mim. A primeira foi onde fiz meu curso de Inglês, em 2010, meus colegas e meu querido professor fizeram uma festinha, e a mais recente foi em 2014, quando meus irmãos compraram um bolo e uns salgados. Gostei muito do carinho recebido obviamente, no entanto a verdade é que eu nunca fiz parte disso. Então eu nunca preparo nada, não chamo pessoas, não faço nada, e se dá na telha de fazer é de repente e vou comer algo com quem está do meu lado. Não comemoro de fato.
A realidade é que quanto mais perto eu chego dos dias 24/03 coisas ruins começam a acontecer. Primeiro a morte da minha irmã, que aconteceu no dia 18/03/2002. Ela sofria de câncer há três anos, a vida dela e da minha mãe se passaram basicamente em hospitais durante esse tempo. Desde então, os meses de março ficaram bem tristes, principalmente para minha mãe. Alguns anos depois, não me lembro bem o ano, um rapaz que era colega da minha mãe faleceu no dia 23/03. Ele morava na rua logo acima da nossa e fomos à casa da mãe do moço. Como em toda morte ocasionada por acidente no trânsito, o clima de desespero e desolação tomou conta da casa e da rua. O pior de tudo é que mais cedo naquele dia, enquanto eu minha mãe caminhávamos, vimos o local do acidente - sem o corpo - com muito sangue e alguns policiais fazendo a perícia. Aquelas cenas se impregnaram na minha cabeça durante uma semana seguida. Não conseguia pensar em outra coisa. Sem dúvida essas são as piores e mais fortes lembranças que ficam quando chega março. 
De resto, nessa época sempre há uma discussão na família, ou com um(a) amigo(a), ou com o meu noivo, ou algo não sai como eu quero, ou entro em crise existencial e começo a achar que minha vida é uma imensa porcaria. É de praxe. Confesso que as crises começaram quando completei 20, ou seja, essa é segunda crise existencial pela qual estou passando. Me pergunto se isso vai durar o resto da minha vida, ou até eu completar certa idade e desligar da ideia de que eu devo me importar com as coisas. É quando minha depressão fica forte o suficiente para me dar crises de ansiedade e querer passar o dia mofando na cama. É quando um turbilhão de sentimentos e pensamentos se juntam num furacão, prontos para arrasar meu cérebro e qualquer traço de alegria genuína no meu ser.
Você pode achar exagero, ou que na verdade eu gosto de ficar assim e me entupo de desculpas para dizer para mim mesma que estou triste, só que não importa. Não tenho surpresas, não faço nada, e nem tenho ânimo. Nesses dias, às vezes sinto que eu queria viver num casulo, pelo menos até passar o dia 24. Assim as pessoas esqueceriam, e minhas redes sociais não ficariam cheias de mensagens, que na maioria acredito serem falsas, ou pelo menos da boca para fora. E eu também poderia esquecer, me privar das tristezas do mês.
Surpreendentemente o outono é minha estação preferida. Brasília fica linda porque as chuvas começam a cessar, mas a grama permanece verde por um bom tempo. O frio começa a chegar, e o céu é exuberante no planalto central, mais do que em qualquer época. Somente o início é sempre triste e "feio".
Por isso dos meus desaniversários.



Imagem: http://blog.patiobrasil.com.br/post/O-que-rola-no-Patio-Brasil-Shopping::Cuidado-com-a-seca