domingo, agosto 28, 2011

Death comes by night




Era tarde da noite. Ela não esperava tão cedo em sua juventude, mas já estava morrendo. Ela não sentia mais qualquer coisa. A dor já tinha ido embora. Seus pulsos iam ficando cada vez mais fracos, hora a hora, minuto a minuto. Não chorava mais. Só conseguia fitar a parede branca de seu quarto e os móveis empoeirados que estavam cheios de folhas escritas. Escritos feitos com lágrimas, sangue e dor. A pena que ela utilizava estava esfolada sobre seu criado mudo. As roupas manchadas com tanto choro e as feridas ainda pulsavam. Mas ela já não sentia mais nada disso. Sua dor foi tão enorme que a privou de suas sensações, de seus infortúnios, de sua própria vida. Ela fenecia, deitada em sua cama gelada, sem amor, sem qualquer um que pudesse ajudá-la. A neve caía. Em silêncio total, a não ser pelas corujas e algum ruído da velha casa de madeira, ela tentava fechar os olhos e adormecer para sempre. O vento ruía e com pressa ela tentava dormir. Mas a morte queria se divertir com ela, vê-la ir-se aos poucos. E quanto mais ela tentava, mais ela permanecia acordada em sua mente vazia e perdida. Até que então, quase pela manhã, ela conseguiu fechar os olhos e ver sua vida passando em flashes de memória. E assim ela se foi, vendo os seus dias de glória enquanto o inverno açoitava o mundo naquela madrugada.




Uma canção que pudesse definir esse texto não sei se existe. Mas que quase toda noite é assim, é inevitável ...




Snow - Kamelot






"I don't remember how
I felt the night, she came
Memories spin around
They flow"

terça-feira, agosto 16, 2011

Adaptar





Não me importo se você me deixar aqui sozinha, contanto que nada além de você mesmo vá embora. Não quero ter que ver meus pedaços ficando para trás – novamente -, enquanto a passos lentos vou tentando reviver. Não quero ter que me explicar para o meu lado moribundo o quão felizes ainda podemos ser, porque acho que até meu lado mais feliz está triste. Eu não poderia encontrar qualquer força para acender a chama de novo. Seria eu uma jovem com tanta amargura, que nada seria alegre ao meu lado. Eu seria flores mortas, um jardim sem vida. E pergunto-me se já não sou assim ... Ah, juro que tentei ser melhor, mais agradável, mais palatável. Mas é em vão querer ser assim, sendo que o mundo me obriga a agir tão diferentemente. Vida injusta ? Talvez. Embora eu acredite que não tanto.
Dizer que não tenho medo não posso. Dizer o que penso não devo. Sentir-me incapaz é a única opção que se estende perante mim. Horizonte, longe, infinito, inatingível, inalcançável, inacessível. E vou acostumando-me a esse sentimento que mal posso suportar. Costume. Adaptar-me e seguir sem que nada possa me desviar. Sem que nada seja auto-sacrifício e a recompensa posta de lado.
Não, não vou continuar com essa loucura. Tenho meus planos e sei que sou capaz de executá-los bem, até muito melhor, sozinha. Vou dar um tempo. Um tempo de mim e de minha vida. Quero voltar a ser a mesma de antes. A mesma que agia sem limites. A que não se dava por vencido em um olhar. A fortaleza que eu queria ser agora ...
Não há notas de rodapé, não há canção. Há apenas o desejo de poder seguir em frente, sem que nada entre no caminho. Sem que nada possa me derrubar. Logo agora que eu consegui me libertar ...

domingo, agosto 14, 2011

Quero que volte





Há nuvens de esperança nos céus agora. O deserto está prestes a florescer e enverdecer-se. O que era seco e morto voltará a viver e crescer em algum tempo. Verdade que parece demorar demais essa época tão hostil. Porém, asseguro-me de que a chuva virá como um alívio tão imediato que trará paz dentro desse coração desatinado e confuso.
Eu nunca mais senti as gotas de água fria escorrendo pelo corpo em um dia cinzento e bonito – pelo menos para mim. Do vento que açoitava a pele molhada e arrepiada por uma sensação puramente física, nada emocional ou particular demais. Embora vez por outra viesse uma emoção desprovida de cautela, mas era apenas emoção que logo passava.
Agora com essa seca que castiga-me como se eu estivesse no próprio inferno, sinto mais falta do que o habitual das chuvas fortes, quando parecia que os céus caíam e ninguém podia fazer nada para impedi-los. Ver a grama verde, o céu cinza e pesado, a estrada molhada refletindo a luz fraca do dia. A luz fraca do dia ... Ah, como é lindo quando a única luz que existe é pálida. A escuridão cega os olhos de outras pessoas escondendo-me, enquanto o céu, a chuva e o vento sabem onde e como estou.
Só imploro, ó céus, que me dês de volta os meus dias chuvosos, cheios de nostalgia e alegrias para o meu interior!




Marooned - Pink Floyd




Uma música instrumental que me faz viajar no tempo-espaço deste mundo meu. Embora não tenha uma palavra sequer, me faz ir a lugares que só existem dentro de mim. 

segunda-feira, agosto 08, 2011

Barreira





Eu preciso encontrar meu lugar, para transformar meu mundo, e torná-lo palpável em papel e tinta de caneta. Rendo-me em falta de inspiração, mas não é verdade. Há tanto que preciso colocar para fora,     que eu devo colocar, pois me consome. Mas ao deixar as memórias escaparem, e transformarem as páginas seguintes do meu livro pessoal, corro um risco que quero evitar. Estou com medo, insegura, e poderia gritar agora, mas não faço por covardia, ou o que quer que isso pareça ser. Nem em todo o meu subjetivismo eu seria capaz de mostrar, é mais forte do que o segredo. Eu deveria me calar, parar de escrever e de transpor tudo o que estou sentindo. Só não consigo.
Então começo a escrever, mas não chego a lugar algum. Não atinjo com sucesso o alvo que tanto desejo. Eu deveria inventar. Criar novos mundos e deles falar, já que o meu anda tão bagunçado e confuso. Mas não posso, com tanta informação guardada no peito. Então surge a barreira intransponível entre mim e as folhas. Mesmo tão íntimas, não consigo alcançá-las. Rendo-me à noite, pois é ela quem me deixa mais solta e livre, mas nem ela está conseguindo. Perco-me nos pensamentos e a lógica se vai, e meu mundo se despedaça, e eu não consigo me achar em meio ao meu próprio caos.
A caneta, meu caderno, o coração, todos me chamam para ir até as minhas páginas em branco para preenchê-las. Entretanto, tudo que consigo são ansiedade, nervosismo, memória e arrepio, noite em claro e coração pulsando mais forte. Por isso hesito agora em escrever. E assim, começo a achar que tudo o que fiz até hoje parece queimar.
Quase tudo claro, as luzes se apagam, a memória voa e a escrita permanece, no papel e em aguardo. 





Wither - Dream Theater



 

"Let it out, let it out
Feel the empty space
So insecure
Find the words
And let it out
"




Escutei essa canção durante toda a composição. Repeti-la umas 8 vezes (palpite baixo) até conseguir chegar à última linha. (Na verdade, eu a escutei até pra fazer essa nota que está lendo.) Se observarem a letra, ela fala exatamente do que eu disse, sobre estar bloqueado. Acho que a grande maioria de nós, escritores, passamos por alguma fase assim, seja o motivo qual for. E como bons viciados em escrita, sabemos o quão horrível pode ser esse período, que pode chegar a durar meses. Essa música foi de grande incentivo pra mim. Espero que, para aqueles de mente aberta pra música, possam tirar o mesmo proveito que eu ... 

sexta-feira, agosto 05, 2011

Horizonte




Agora eu vejo que se estende além mar, que vai pra longe, tão longe que já não posso ver. O horizonte conquistou-me. Venceu-me, pois não posso lhe alcançar. E assim, não vejo mais a esperança de um dia ter-lhe em meus braços e dizer que és meu e de ninguém mais.
O vento frio castiga essa pele já arrepiada, absorta em tuas imagens, que como em câmera lenta refazem-se todas aqui por dentro. E faz com que o rosto, já encharcado do choro, resfrie-se ainda mais. O sol está distante nesse inverno. Meu eu também. Minha metade se foi e não consigo encontrá-la em lugar algum. O horizonte a levou. E com minha metade foi-se também minha alegria. Agora só o que enxergo são vultos na escuridão, que ficam distorcidos demais com estes meus olhos marejados de solidão.
Não posso pedir que volte, não devo esperar que volte, não quero dizer que está vivo em mim, embora morto não esteja. Porque admitir que sinto a tua falta, pensar sobre o que já vimos e vivemos, nossos planos, nossos sonhos e desejos, é muita dor. Já é insuportável saber que você partiu e que a sensação de te ver de novo seria como voltar a viver. É mais fácil tentar ignorar a dor do que saber que o que eu sempre quis me escapou às mãos como o tempo. 




Vento no Litoral - Legião Urbana



Aonde está você agora além de aqui, dentro de mim ?!