sexta-feira, outubro 19, 2012

Humanidade




Era inverno. O frio açoitava os passantes da rodoviária que, como de costume, estava lotada. Era por volta das 9h30 da manhã. Havia pego o 229.1, e por volta daquele horário, lá estava eu, na minha rotina de ir para a UnB. Passando por entre a multidão, dirigindo-me à fila do 110, eis que me deparo com uma cena, no mínimo, comovente.
Um morador de rua, dos bem típicos, maltrapilho e sujo, estava sentado encostando-se numa das pilastras de sustentação. Ele estava tomando o que poderia ser sua única refeição no dia. Acredito que fosse um um pão ou biscoito de queijo, não tive tempo de reparar direito. O que não é um fato extra ordinário, de fato. Ele estava comendo, ótimo! O detalhe que realmente me impressionou profundamente foi que, ele estava dividindo aquele pãozinho com um gatinho de rua, igualmente sujinho e com aparência sofrida. Incrível! Uma pessoa que não tem nem meios de comer regularmente dividindo sua refeição com um animalzinho igualmente indefeso! A humanidade dessa cena me comoveu. Humanidade essa que às vezes penso ser extinta. Humanidade que creio que quase ninguém teve a decência de notar, com seu dia corrido e agendas lotadas. A cegueira da rotina. Eu percebi que muitas pessoas apenas passavam perto dos dois, mas nem sequer dirigiam o olhar aos dois. Mas não pude deixar de notar.
Me arrependo apenas de não ter ido ajudar ao homem e o gato. Queria poder ter dado algo a mais àquelas duas criaturas, e ter alegrado um pouco mais o dia dos dois. Mas o ônibus já se apressava e a fila estava quase pelo fim. As ruas não perdoam, nem os professores pelos atrasos. Mas confesso que fiquei com a consciência ligeiramente pesada depois de não os ter ajudado naquele momento. 
A cena continua comigo, como um marco de uma gentileza que raramente vemos hoje em dia. Quisera eu poder lembrar o rosto do homem e ir atrás dele para dizer o quanto eu o admiro. Quisera eu poder ajudá-lo com algo que fizesse realmente diferença na vida de quem me pareceu ser tão dócil num ato tão singelo. E fui-me no ônibus, pensando que nem tudo está perdido.

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