Lost in reverie

Lost in reverie

sábado, outubro 20, 2012

Fim de Tarde no Cerrado




Deitada na rede, com as pernas entrelaçadas nas de minha mãe, hoje senti o frescor da brisa de primavera num fim de tarde estonteantemente belo. O céu vestido de um azul pacífico, com nuvens em formatos que variavam de cachorrinhos correndo a alienígenas saídos de um filme de ficção científica. A rede ia de um lado a outro, sem a pressa de uma sexta-feira tradicional. Conversas de mãe e filha, com tal cumplicidade invejável, adentrando a tarde que ia ficando mais bonita com a proximidade do crepúsculo.
Não fosse o calor que fazia, eu teria apreciado um pouco mais. Mas contento-me em saber que minha mãe assim prefere. O Sol ia cada vez mais para perto do horizonte, e logo entrei para me arrumar à fim de ir à casa de meu pai. Me despedi, e fui. Subindo as ruas, comecei a admirar os tons que o sol mais alaranjado criava no ambiente ao meu redor. O verde das árvores e as cores das casas ligeiramente modificados, obras primas. Um ar primaveril revigorante. Fiquei como boba olhando para o céu de poucas nuvens enquanto caminhava, já chegando na casa de meu pai.
Com isso, me pus a pensar: será que muitas pessoas param para apreciar as coisas simples, como um fim de tarde bonito, do dia-a-dia? Vejo tanta gente correndo e sufocadamente atarefadas, sem tempo nem mesmo de ter uma noite tranquila com um sono de qualidade, que eu não sei quantas pessoas param para reparar na beleza das coisas simples. É tão revigorante e prazeroso observar essas coisas, e acho que poucas pessoas sabem o valor disso.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Humanidade




Era inverno. O frio açoitava os passantes da rodoviária que, como de costume, estava lotada. Era por volta das 9h30 da manhã. Havia pego o 229.1, e por volta daquele horário, lá estava eu, na minha rotina de ir para a UnB. Passando por entre a multidão, dirigindo-me à fila do 110, eis que me deparo com uma cena, no mínimo, comovente.
Um morador de rua, dos bem típicos, maltrapilho e sujo, estava sentado encostando-se numa das pilastras de sustentação. Ele estava tomando o que poderia ser sua única refeição no dia. Acredito que fosse um um pão ou biscoito de queijo, não tive tempo de reparar direito. O que não é um fato extra ordinário, de fato. Ele estava comendo, ótimo! O detalhe que realmente me impressionou profundamente foi que, ele estava dividindo aquele pãozinho com um gatinho de rua, igualmente sujinho e com aparência sofrida. Incrível! Uma pessoa que não tem nem meios de comer regularmente dividindo sua refeição com um animalzinho igualmente indefeso! A humanidade dessa cena me comoveu. Humanidade essa que às vezes penso ser extinta. Humanidade que creio que quase ninguém teve a decência de notar, com seu dia corrido e agendas lotadas. A cegueira da rotina. Eu percebi que muitas pessoas apenas passavam perto dos dois, mas nem sequer dirigiam o olhar aos dois. Mas não pude deixar de notar.
Me arrependo apenas de não ter ido ajudar ao homem e o gato. Queria poder ter dado algo a mais àquelas duas criaturas, e ter alegrado um pouco mais o dia dos dois. Mas o ônibus já se apressava e a fila estava quase pelo fim. As ruas não perdoam, nem os professores pelos atrasos. Mas confesso que fiquei com a consciência ligeiramente pesada depois de não os ter ajudado naquele momento. 
A cena continua comigo, como um marco de uma gentileza que raramente vemos hoje em dia. Quisera eu poder lembrar o rosto do homem e ir atrás dele para dizer o quanto eu o admiro. Quisera eu poder ajudá-lo com algo que fizesse realmente diferença na vida de quem me pareceu ser tão dócil num ato tão singelo. E fui-me no ônibus, pensando que nem tudo está perdido.

sábado, setembro 08, 2012

Tempo








         O tempo voa por entre os segundos que passam nesta madrugada de pouco movimento e com uma brisa fria e aconchegante. O agora já é passado. E o que se passou há tanto tempo parece que foi ainda ontem. Ah, tempo! Divino é o teu poder. Quanto mais de ti eu vejo, mais eu me sinto pequena e insignificante. Que poder tenho eu sobre ti ? És dono de tua vontade, muito mais do que eu sou da minha. Escolhes quando quer ser lento ou ligeiro. Senhor das vontades. Faz esquecer, lembrar, relembrar, não se importando se é conveniente ou não. Como pode ser tão livre ? Fazer o que faz e não ser punido (quando às vezes pensamos que deveria). Nem sempre o entendo, mas submeto-me. Junto com a vida, se encarrega de trazer as dores, alegrias, paixões, amores, aventuras, riscos, e tudo o mais que a vida oferece aos seres que dela desfruta. O tempo ajuda com algumas coisas, atrapalha outras, mas no fundo sabemos que sem ele, nada haveria. O tempo é uma das contradições mais bonitas.


Um único parágrafo para tentar descrever uma
maravilha indescifrável. 



Time - Pink Floyd

quinta-feira, agosto 23, 2012

Tristeza





         Uma simples fotografia. Imagem congelada que pode significar tudo ou nada. Pode ser a alegria ou a tristeza. Um mundo ou apenas mais um pedaço de papel. Mas o foco não é a fotografia, é um dos estados emocionais que ela provoca no ser humano, a tristeza.
E que mundo indescentemente bonito é esse da tristeza. Somos laçados facilmente por uma lembrança distante, de algo que não podemos ter novamente. De alguém que antes fora o que já não mais o é. De algo que nem chegamos a ter. De coisas que nunca fomos ou seremos. Entramos sem notar. Não há portas para se bater, placas indicadoras, fotos de satélite ou rotas no gps. Quando vemos, já é tarde. E o mundo desaba logo ali, em nossas cabeças. É triste. Mas tem sua beleza interior. É sombrio. Mas ilumina a alma para expressar-se de alguma forma. Seja a música, a escrita, a pintura, a obra de arte em geral. Ter vontade de não viver, mas não ter coragem de realmente abandonar a vida. Mostra um amor estranho que sentimos pelo viver. E o amor que sentimos até mesmo por outras pessoas.
Não que a tristeza seja 100% boa, mas também não é completamente ruim. “Há sempre um lado positivo”, se aplica ao campo ‘tristeza’. Estar triste, para mim, é tão normal quanto estar “normal” ou feliz. Não é difícil lidar com esse mundo. Basta aprender. E disfarçar ajuda bastante. A vida se torna um pouco menos difícil quando aprendemos a lidar com nossas tristezas e felicidades também.



Uma madrugada fria. Sem sono. Vencer essa parte talvez não seja possível.
Mas não morrerei por isso. Ninguém morre por isso.