quarta-feira, setembro 01, 2010

Essência


Sentada na varanda da humilde casa, ela tece seus sonhos a cada ponto que dá na renda simples que está a confeccionar. Dá uma rápida descansada de vez em quando. E em cada intervalo dá um leve sorriso, lembrando-se de algo bom. Então, volta a costurar, com mais ânimo, como se o que tivesse lembrado estivesse sendo incorporado à sua criação. O vento soprou, balançou seus cabelos, jogou alguma das folhas secas que haviam caído em seu quintal para dentro da varanda. Observando o movimento das folhas secas, caídas, olhou num impulso para as que ainda se seguravam na árvore. Parecia ter viso o que a folha que caíra deveria ter sentido, se possuísse sentimentos, quando se viu indo embora de onde passara toda a vida. Deixava seu lar, sem querer. E nesse momento, passou pela cabeça daquela jovem moça, que ela também era como a folha seca. Deixara para trás, não por opção, tudo o que sempre a acompanhara. Naquela hora, sentiu o vazio que a saudade impusera-lhe. E quis voltar.
Correu casa adentro, largando tudo sobre a mesinha de café da varanda, abriu as portas de seu guarda-roupa. Tirou algumas coisas do lugar e pôde avistar uma antiga caixa, empoeirada e com um tom amarelado, causado pelo tempo. Abaixou-se e a pegou em um leve movimento das mãos, tirou a poeira de cima da tampa e sentiu o tempo que passou sem que ela nem ao menos pensasse naquela caixa. Abriu-a. Havia uma bagunça na caixa, mas parecia que ela havia se encontrado. Fotos, desenhos, cartas. Uma infância, uma adolescência, uma vida passada, uma outra vida. Se lembrou, olhando aquelas velhas fotografias, de como era brincar em pequenas casas de madeira, fingindo ser a mamãe que de tudo cuidava. Voltou ao passado. Parecia tão distante, mas ainda fazia parte dela. Sua essência estava ali, só a havia perdido por um instante entre uma pedra ou um caminho alternativo que a vida lhe ofereceu. Mas ainda era aquela mesma garotinha das fotos. E caiu aos prantos ao perceber que ela deixara tudo e todos ao seu redor passarem. Se viu sozinha naquela casa, e só o que a fazia companhia era uma boa xícara de café, que não tinha com quem compartilhar ou brigar por ele ...

2 comentários:

  1. bom posso brigar com ela por esta xícara de café se isso a fizer mais feliz ^^

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  2. hahaha vá em frente !
    ps: ainda bem que eu gosto de chá ^^

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